Escassez de água: O que é, como nos afeta e como podemos atuar?

Portugal enfrenta um ano de seca, o que tem efeitos nos diversos setores da economia, desde o abastecimento urbano à energia. Neste Dia Mundial da Água é essencial refletirmos sobre a importância deste bem e os impactos da sua escassez.

O que é?

A escassez de água é a indisponibilidade de água doce para suprir as necessidades típicas de consumo. Esta é desencadeada, principalmente, pelas alterações climáticas, em especial as situações de seca que impedem o enchimento normal das barragens.

O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou que atualmente 40% da população mundial é afetada pela escassez de água, e com o agravamento das alterações climáticas prevê-se que esta situação venha a deteriorar-se nos próximos anos.

Para que esta realidade mude, não há dança da chuva que nos valha, é necessário agir! Medidas de poupança comportamentais, para as quais todos somos chamados em períodos de seca, são importantes, mas normalmente não são duradouras. A eficiência hídrica, introduzida de raiz em todos os processos e usos da água, é a chave para que o cenário mude, de forma significativa e permanente.

Como nos afeta?

Quando a água não é suficiente para todas as necessidades a primeira medida é a sua racionalização. Apesar de o abastecimento para consumo humano ser prioritário, a disponibilidade em algumas regiões escasseia em períodos de seca. Se vive em Viseu, certamente que se recorda de 2017, quando a sua casa foi abastecida por camião-cisterna porque a Barragem do Fagilde não tinha água suficiente para servir a população.

O setor energético é um dos mais afetados, negativamente, pela escassez de água. A suspensão/redução da produção de energia hidroelétrica em diversas barragens que se verifica em situações de seca contribui para a redução da produção de energia renovável e leva, consequentemente, a um incremento do uso de fontes não renováveis aumentando as emissões de gases com efeito de estufa.

Como podemos atuar?

Se por um lado, a descarbonização é chave para a mitigação das alterações climáticas e, consequentemente, para atenuar a situação de escassez hídrica, por outro, esta escassez reduz significativamente a produção de energia elétrica renovável, contribuindo para o aumento de emissões de CO2. Como podemos então anular este efeito de cascata?

  • Reduzindo a dependência da água no setor energético

Para garantir que o caminho para a descarbonização continua a bom ritmo, mesmo em situações de escassez hídrica, e de forma a assegurar a resiliência do setor energético, é importante reduzir o consumo de energia, através da eficiência energética e diversificar as origens de energia elétrica renovável. Para isso contribui a aposta na energia solar, na descentralização da produção renovável (por exemplo através das comunidades de energia) e no hidrogénio verde, quando produzido através de águas residuais tratadas não competindo com os usos da água para abastecimento (opção possível e interessante, sobre a qual pode conhecer mais no Estudo do LNEG sobre “Água para a Produção de Hidrogénio Verde (Renovável) via Eletrólise em Portugal”).

Apesar de o setor energético desempenhar um papel crucial na transição energética, também nós, cidadãos, podemos atuar e contribuir para um planeta mais sustentável através da instalação, em nossas casas, de painéis solares para o aquecimento de água e de painéis fotovoltaicos para a produção de energia elétrica.

  • Aumentando a disponibilidade hídrica

De forma a aumentar a disponibilidade hídrica podemos reduzir os consumos de água por via da eficiência e diversificar as origens de água.

A redução dos consumos deve ser atingida através da redução de desperdícios e da aposta na eficiência hídrica. O setor urbano é, a par do setor agrícola, o que tem um maior potencial de eficiência hídrica (40%) e o setor onde se prevê um maior crescimento da procura de água nos próximos anos, a par com o setor industrial. É também no setor urbano que a água carece de mais tratamento e energia, pois existe uma maior necessidade de água potável [[1];[2]].

As entidades gestoras de abastecimento de água têm vindo a aumentar a eficiência dos seus serviços, através da redução de perdas. Além desse objetivo, que se mantém, cada um de nós pode contribuir também para o aumento da eficiência hídrica nos edifícios e espaços que utilizamos. Como?

  • Monitorizando e conhecendo os consumos de água para a deteção e reparação de fugas (conheça algumas soluções para essa monitorização);
  • Utilizando sistemas de rega mais eficientes e que sejam ativados automaticamente em função das necessidades do solo, das plantas e das condições climáticas;
  • Substituindo torneiras, chuveiros e autoclismos por outros mais eficientes. Saiba como escolher e como financiar;
  • Instalando sistemas de circulação e retorno, na rede ou compactos (nos equipamentos) que permitem que a água saia quente quando abrimos a torneira;
  • Exija a Classificação AQUA+ na compra ou aluguer de imóveis e na reserva de alojamentos turísticos (que lhe permite comparar a eficiência hídrica, numa escala de F a A+).

Pode conhecer as soluções mais adequadas ao seu imóvel através de uma Auditoria AQUA+, o sistema que permite a identificação de oportunidades e medidas de eficiência hídrica.

Atingida uma maior eficiência no uso, e conhecida a quantidade de água necessária para suprir as necessidades efetivas (i.e., com desperdícios mínimos), é possível reduzir ainda mais o uso de recursos hídricos, através do aproveitamento de novas origens de água (“água renovável”) para usos não potáveis:

  • Aproveitamento de água pluvial – água da chuva que pode ser armazenada em períodos de elevada pluviosidade e utilizada em períodos mais secos;
  • Reutilização e reciclagem de água cinzentas – água proveniente da utilização de torneiras e chuveiros e que, após tratamento, podem ser aproveitadas para usos não potáveis dentro (e.g. autoclismos) e fora dos edifícios (e.g. rega e lavagens de pavimentos);
  • Aproveitamento de Água para Reutilização (ApR) – água tratada em Estações de Tratamento de Águas Residuais urbanas (ETAR), passível de utilizar para usos não potáveis (e.g. regas e lavagens de ruas);
  • Dessalinização – processo de tratamento da água do mar para consumos potáveis e não potáveis.

A escassez e a competitividade pela água está a aumentar em todo o mundo, e o nosso país não é exceção. Mas com o conhecimento, instrumentos e tecnologia atuais, e com a nossa capacidade e possibilidade de escolha, cada um de nós pode garantir que chega para todos!


[1] P. Burek et al., Water Futures and Solution – Fast Track Initiative, 2016

[2] APA, Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água (PNUEA 2012-2020), 2012

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on email
Email

Para mais informações contacte:
ADENE – Agência para a Energia
Av. 5 de Outubro, 208 – 2º Piso, 1050-065 Lisboa – Portugal 
Tel.: (+351) 214 722 800
Email: aquamais@adene.pt